Será lícito um pastor receber
financeiramente pelo trabalho que realiza na obra de Deus? Ou um autor cristão,
que se dedica a produzir dicionários e conteúdos de estudo, receber pelas obras
que publica?
“Pois a Escritura declara: Não
amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno
do seu salário.” 1 Timóteo 5:18 (ARA).
Ou ainda, missionários que deixam
tudo e vão para terras distantes evangelizar estão errados ao receberem valores
monetários para o seu sustento e do seu lar?
Podemos ainda pensar sobre os
professores de seminários que preparam pastores, eles não devem receber nada
pelas aulas que dão? Aqueles que produzem as bíblias que compramos estão
errados ao determinar certo valor para aquisição destes materiais?
Alguns respondem a estas perguntas ao
citarem; Mateus:
“Curai enfermos, ressuscitai mortos,
purificai leprosos, expeli demônios; de graça recebestes, de graça dai.” Mateus
10:8(ARA).
É muito comum hoje que os
trabalhadores da obra de Deus sejam bastante hostilizados com o uso deste
texto, onde muitos afirmam que qualquer coisa que venha de Deus deve ser dada,
não deve de forma alguma ser-lhe atribuído qualquer valor.
Assim, pastores, autores, músicos,
missionários, professores, etc., têm sido acusados com base neste versículo de
serem mercenários, ou seja, de não cumprirem o texto bíblico a favor de si
mesmos.
Mas será que o versículo de Mateus
10:8 proíbe as pessoas que trabalham na obra de Deus de receberem o seu
sustento pelo seu trabalho? Vejamos uma análise sobre esse texto:
O que NÃO significa de graça
recebeste, de graça dai?
(1) De graça recebestes, de
graça dai não significa que a Bíblia proíbe servos de Deus que se dedicam de
forma especial à obra do Senhor de serem sustentados pelo trabalho que
realizam. Isto fica claro quando observamos alguns textos e situações bíblicas:
a) Paulo recebeu salário por algum
tempo para manter o seu trabalho missionário de pé em Corinto:
“Despojei outras igrejas, recebendo
salário, para vos poder servir” 2 Coríntios 11:8 (ARA).
b) Paulo foi sustentado pela
igreja de Filipos no início da sua caminhada no seu trabalho missionário:
“E sabeis também vós, ó filipenses,
que, no início do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja se
associou comigo no tocante a dar e receber, senão unicamente vós outros; porque
até para Tessalônica mandastes não somente uma vez, mas duas, o bastante para
as minhas necessidades” Filipenses 4:15-16 (ARA).
c) Os presbíteros que faziam um
bom trabalho, deveriam ser honrados por isso também financeiramente:
“Devem ser considerados merecedores
de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os
que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces
o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário” 1
Timóteo 5:17-18 (ARA).
d) A Bíblia, no Velho Testamento,
já dava o direito do sustento àqueles que eram designados a servir como
sacerdotes. No Novo Testamento, Paulo orienta que aqueles que pregam o
evangelho que tirem o seu sustento dele:
“Não sabeis vós que os que prestam
serviços sagrados do próprio templo se alimentam? E quem serve ao altar do
altar tira o seu sustento? Assim ordenou também o Senhor aos que pregam o
evangelho que vivam do evangelho” 1 Coríntios 9:13-14 (ARA).
e) Paulo considerava o sustento
do trabalhador que servia ao evangelho, como um direito que poderia ou não ser
exercido. Nalguns momentos Paulo escolheu não exercer, mas de forma alguma
pregou contra o direito daqueles que o exercem:
“não temos nós o direito de comer e
beber? E também o de fazer-nos acompanhar de uma mulher irmã, como fazem os
demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas? Ou somente eu e Barnabé não
temos direito de deixar de trabalhar?” 1 Coríntios 9:4 (ARA).
O que REALMENTE significa de graça
recebestes, de graça dai?
(2) Como observamos claramente
nos textos acima, não temos uma proibição na Bíblia de que as pessoas que se
dedicam de forma especial ao evangelho vivam dele.
Mas o que Jesus quis dizer então com “de
graça recebestes, de graça dai”? Para responder a esta pergunta, basta
olharmos para o contexto. O que Jesus deu àqueles discípulos naquele momento?
Vejamos:
“Tendo chamado os seus doze
discípulos, deu-lhes Jesus autoridade sobre espíritos imundos
para os expelir e para curar toda sorte de doenças e enfermidades” Mateus 10:1
(ARA).
Foi este poder que eles receberam de
graça. Assim, de graça recebestes, de graça dai, significa que eles não
deveriam usar esta autoridade que eles receberam ali como uma moeda de troca,
ou seja, não lhes era permitido exigir que só fariam aquilo se houvesse
pagamento.
(3) É um erro achar que “de
graça recebestes, de graça dai” seja uma proibição, por exemplo, de que
um autor que dedica anos e anos de estudos e pesquisa não possa financiar o seu
trabalho com a venda de um livro que tem os seus custos de produção e
distribuição.
Se realmente fosse proibido que tudo
aquilo que recebemos de Deus não pudesse gerar sustento na nossa vida, então
nada poderia gerar algum ganho, pois TUDO que temos e somos vem de Deus,
recebemos tudo Dele:
“Não digas, pois, no teu coração: A
minha força e o poder do meu braço me adquiriram estas riquezas. Antes, te
lembrarás do SENHOR, teu Deus, porque é ele o que te dá força para adquirires
riquezas; para confirmar a sua aliança, que, sob juramento, prometeu a teus
pais, como hoje se vê” (Deuteronômio 8:17).
Assim, se recebeu o talento para ser
médico, deveria atender as pessoas sem cobrar nada por isso?
(4) Por fim, apenas para pegar em
alguns exemplos, se aquelas pessoas que imprimem as Bíblias que usamos não
pudessem cobrar um valor por elas, logo as fábricas fechariam, pois quem
arcaria com os custos de produção?
Se aqueles que se dedicam a escrever
comentários e literaturas cristãs para adultos e crianças, ajudando-nos a
entender melhor a Palavra, não pudessem ter desse trabalho o seu sustento, logo
teriam de deixar de o fazer, ou fazer num ritmo extremamente lento, pois teriam
de achar outras formas de sustento para si e para o seu lar.
Isto prejudicaria em muito a produção
de literatura cristã e o crescimento da obra do Senhor. Se os professores dos
seminários não pudessem receber qualquer valor pelas aulas que dão, teriam de
parar de dar aulas para cuidar das suas famílias com outro tipo de trabalho.
Quem prepararia os pastores? É por
isso que Deus, na Sua sabedoria, não proibiu que aquele que se dedica ao
evangelho possa sustentar-se desse mesmo evangelho.
(5) Evidentemente que repudio
todos os excessos e exageros daqueles que são “apenas exploradores”. Mas
não podemos generalizar e penalizar os servos fiéis com base nos comportamentos
errados daqueles que cometem exageros, nem usar um texto bíblico de forma
errada, para acusar servos que estão de acordo com os princípios bíblicos, de
serem mercenários, por receberem o seu sustento merecido do seu trabalho fiel a
Deus.
De graça recebestes, de graça dai, é
um padrão de boa conduta que os servos de Deus devem seguir e não uma forma de
jogar os servos de Deus numa sarjeta como se não fossem dignos de serem
sustentados pelo trabalho que realizam.
Pajovi 2025
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